E tá errado?
Por Júlia Franco.
18/10/2021 12:11
A língua portuguesa é uma das línguas mais ricas em questão de diversidade, a cultura, os sotaques, as pessoas. As variedades linguísticas são o que fazem a nossa língua ter vida, muitos conservadores não veem essa diversidade como algo positivo entrando em uma série de pré-julgamentos. A ideia de que existe somente uma língua correta, que deve ser seguida e falada igualmente por todos, é equivocada e influencia a prática de exclusão social, os indivíduos pertencentes a esses grupos são discriminados pelo seu sotaque ou pelo seu português "errado'', daí surge o preconceito linguístico que é um problema que vem aumentando cada vez mais.
Segundo o professor do Departamento de Línguas Estrangeiras, Marcos Bagno, “preconceito linguístico é tudo de negativo, repulsivo ou até desrespeitoso em relação às variedades linguísticas presentes na sociedade''. Segundo o doutor em Linguística pela FFLCH-USP, Eduardo Calbucci, “o preconceito linguístico é uma consequência dos preconceitos sociais, raciais e geográficos. Certos grupos, historicamente oprimidos, passam a ter suas formas de expressão condenadas por uma elite que ignora a importância da variação linguística para a riqueza do idioma”. Exemplos disso são quando corrigimos a pronúncia “errada” de alguém, quando dizemos que a linguagem usada antigamente era mais correta, quando discriminamos a linguagem simplificada usada na internet, quando afirmamos que só em Portugal se fala bem português ou quando rimos ou fazemos piadas do sotaque de alguém, isso tudo é preconceito linguístico. O que nos faz pensar dessa forma são os padrões da língua, impostos pelas elites econômicas, políticas e intelectuais que usam a língua como uma forma de dominação e opressão sob a classe mais pobre, usando isso para manter a segregação social, ou seja, a exclusão desses indivíduos. A discriminação vem de pessoas ignorantes e que não possuem empatia com as outras e costumam rebaixar quem não se encaixa, pois julgam estar corretas e se acham no direito de discrimina-las, pois acham que estão em um nível social superior.
Muitos dizem que esse preconceito e a exclusão social não existem, mas se separarmos e percebemos o que acontece na nossa sociedade conseguimos evidenciá-los e perceber como ele vem crescendo cada vez mais. Primeiramente o preconceito socioeconômico, dado principalmente pela falta de dinheiro e acesso à educação e a cultura, fazendo com que a bagagem cultural e de vocabulário seja inferior, e isso prejudica esses grupos sociais, já que as suas oportunidades serão inferiores em relação a quem possui um ensino privado e mais acesso à informação. Ainda podemos enxergar o preconceito regional. Em um país grande como o Brasil há diversos sotaques, cada região com o seu, mas as regiões mais ricas apresentam aversão a sotaques, principalmente os provenientes de regiões mais pobres como o Nordeste. Já o preconceito cultural discrimina a cultura, como as músicas. O rap e o funk são estilos musicais provenientes das classes mais baixas, as gírias diferentes e as letras são muito criticadas e discriminadas pela elite. Também há o de grupos étnicos, que usampalavras e expressões tradicionais ou o preconceito com minorias, como os LGBTQIA +, que usam gírias e expressões características desse grupo. Cada parte da sociedade possui um diferencial na língua, seja pelo sotaque ou pelas gírias.
E existe uma língua correta? Não, já que o nosso idioma e os nossos costumes possuem grande influência dos povos indígenas, africanos, imigrantes europeus, asiáticos, visando seus sotaques, palavras e expressões. Além da questão racial, outro fator que favoreceu essa mistura de povos foi a geografia, e com isso o idioma foi crescendo e mudando, as escolas também tiveram grande influência para a imposição desses padrões da língua, já que sempre foram muito autoritárias, pois sugerem que a única forma certa de falar é a que a gramática impõe. Um país diverso como o Brasil tende a ter uma grande variedade linguística, por causa das diferenças regionais, culturais, raciais, de gêneros e classes sociais. O que devemos fazer é saber distinguir qual o momento apropriado para usar gírias ou para usar as normas gramaticais, como em uma prova, devemos ser mais formais e escrever de maneira correta.
O preconceito, de forma geral, traz uma série de problemas, que podem levar ao não desenvolvimento escolar e social, pode gerar inúmeros tipos de violências, como as verbais, as físicas e desencadear problemas psicológicos decorrentes dessa discriminação social. Claro que há pessoas que falam “errado", mas mesmo assim, ao invés de constrangê-la, o certo a fazer é ajudá-la ao invés de envergonhá-la. A solução existente, é termos mais consciência e humildade em relação às outras pessoas. Se a questão desse preconceito envolve o Brasil, seria uma boa ideia fortalecer as leis existentes para que as pessoas possam buscar justiça quando sofrerem com esse preconceito. Todos temos o direito de nos expressarmos, seja falando errado ou corretamente.